segunda-feira, 1 de março de 2010

Da série "Quem sabe ainda sou uma garotinha..."

Sem grana pra psicólogo, resolveu fazer um esforço para lembrar lances de sua infância, já que não lembra de quase nada. Vieram à sua mente imagens confusas: ela, trancada em um cubículo, com portas dos 4 lados, brincando sozinha; atravessando um corredor longo (até hoje tem uma sensação ruim quando caminha por um corredor, mas não conta pra ninguém...); de castigo em seu quarto, por algum crime infantil do qual não se recorda. Alguma imagem bacana? O dia em que ganhou a boneca Emília...

Estamos falando da infância mais remota, aquela que vai até uns 5 anos de idade... O esforço traz poucas recordações e, então, resolve resgatar fatos com pessoas que fizeram parte desse período e dos que vieram em seguida, acreditando que, com isso, vai juntar os retalhos de sua existência, naquele esquema de se conhecer melhor e entender como se relaciona com os outros...

E o escolhido para abrir os trabalhos foi seu avô materno. Ele era um legítimo alemão, muito calado, tão calado, que ela não tem registro de sua voz. Ele era bonitaço, a cara do Paul Newman, elegantérrimo, sempre de chapéu...

Ele parecia triste, distante, sem sentimentos, até... Mas, eis que um dia, demonstrou amor de sua forma: construiu um balanço para ela e sua irmã. Contente, descobriu que ele sorria...

E, a partir dali, ela resolveu retribuir e ser sua cúmplice em algo. Todos os dias ele comia um ovo cozido, que de cozido não tinha nada, era molenga, praticamente cru... Ela sentou-se à mesa e disse que queria comer um daqueles... Ele ficou contente e sorriu... E um ritual surgiu, todos os dias eles comiam o tal ovo mole...Sem trocar uma palavra, mas felizes...

Até hoje, detesta ovo mal passado, mas não precisa mais fazer o sacrifício... faz tempo que seu avô se foi... quando ela tinha uns 11 anos, talvez... E, pensando nisso tudo, ela se pergunta se é por isso que, às vezes, faz coisas de que não gosta muito pra agradar quem ama...E se é por isso que acredita que amar é fazer sorrir...

Um comentário:

  1. Não podia deixar de comentar, pois enchi os olhos d'água (nenhuma novidade sou muito chorona). Lembrei desta figura, realmente sempre elegante e de chapeu, recordo vagamente do balanço e o ovo mole (lembro que comi uma vez e detestei, mas comi até o fim sem cara de nojo). Lembro dele em frente a casa (em cima da garagem) vendo a vida passar, não lembro de ter ouvido a voz dele, também eu era muito pequena quando se foi.
    PS.: também tenho medo de corredor, já tive muitos pesadelos com ele.

    ResponderExcluir