Sem grana pra psicólogo, resolveu fazer um esforço para lembrar lances de sua infância, já que não lembra de quase nada. Vieram à sua mente imagens confusas: ela, trancada em um cubículo, com portas dos 4 lados, brincando sozinha; atravessando um corredor longo (até hoje tem uma sensação ruim quando caminha por um corredor, mas não conta pra ninguém...); de castigo em seu quarto, por algum crime infantil do qual não se recorda. Alguma imagem bacana? O dia em que ganhou a boneca Emília...
Estamos falando da infância mais remota, aquela que vai até uns 5 anos de idade... O esforço traz poucas recordações e, então, resolve resgatar fatos com pessoas que fizeram parte desse período e dos que vieram em seguida, acreditando que, com isso, vai juntar os retalhos de sua existência, naquele esquema de se conhecer melhor e entender como se relaciona com os outros...
E o escolhido para abrir os trabalhos foi seu avô materno. Ele era um legítimo alemão, muito calado, tão calado, que ela não tem registro de sua voz. Ele era bonitaço, a cara do Paul Newman, elegantérrimo, sempre de chapéu...
Ele parecia triste, distante, sem sentimentos, até... Mas, eis que um dia, demonstrou amor de sua forma: construiu um balanço para ela e sua irmã. Contente, descobriu que ele sorria...
E, a partir dali, ela resolveu retribuir e ser sua cúmplice em algo. Todos os dias ele comia um ovo cozido, que de cozido não tinha nada, era molenga, praticamente cru... Ela sentou-se à mesa e disse que queria comer um daqueles... Ele ficou contente e sorriu... E um ritual surgiu, todos os dias eles comiam o tal ovo mole...Sem trocar uma palavra, mas felizes...
Até hoje, detesta ovo mal passado, mas não precisa mais fazer o sacrifício... faz tempo que seu avô se foi... quando ela tinha uns 11 anos, talvez... E, pensando nisso tudo, ela se pergunta se é por isso que, às vezes, faz coisas de que não gosta muito pra agradar quem ama...E se é por isso que acredita que amar é fazer sorrir...
Não podia deixar de comentar, pois enchi os olhos d'água (nenhuma novidade sou muito chorona). Lembrei desta figura, realmente sempre elegante e de chapeu, recordo vagamente do balanço e o ovo mole (lembro que comi uma vez e detestei, mas comi até o fim sem cara de nojo). Lembro dele em frente a casa (em cima da garagem) vendo a vida passar, não lembro de ter ouvido a voz dele, também eu era muito pequena quando se foi.
ResponderExcluirPS.: também tenho medo de corredor, já tive muitos pesadelos com ele.